24/04/2026
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Brasília: sons revelam as muitas faces da capital

Brasília: sons revelam as muitas faces da capital

Brasília completa 66 anos como centro do poder político, mas foi na música que a capital encontrou uma de suas formas de expressão mais fortes. Diferentes gerações transformaram o cotidiano da cidade em som, revelando estilos e realidades que coexistem no mesmo território.

Rock nos anos 80

Nos anos 1980, o cenário era de inquietação. No fim da Ditadura Militar, jovens artistas usaram o rock para se expressar. Foi nesse contexto que surgiu a Plebe Rude. Para Philippe Seabra, vocalista e guitarrista da banda, o movimento punk deu o rumo. “O punk nos deu nosso norte”, afirma. Segundo ele, a urgência política era inevitável. “Não tinha como ficar alheio ao que estava acontecendo. Brasília naquela época não nos dava escolha.”

Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, lembra que a cena nasceu de uma vivência coletiva. “O Capital começou junto com as outras bandas da nossa geração. Nós, Plebe Rude, Legião Urbana, Finis Africae e muitos outros éramos da mesma turma.” Ele aponta o tédio e o contexto do regime militar como fatores. “Estávamos no final do regime militar e havia uma sensação de estrangulamento.” Para Dinho, as letras falavam do dia a dia e das angústias, sem que eles soubessem do alcance que teriam.

Segundo Dinho, o reconhecimento nacional foi gradual. “As bandas da nossa turma foram sendo gravadas aos poucos. Começou com os Paralamas, depois Legião Urbana, Plebe e, finalmente, o Capital. Em 1986, estávamos todos vendendo centenas de milhares de discos.” Ele diz que o sucesso foi uma surpresa. Décadas depois, acredita que “Música Urbana” ganhou novos significados, por falar de Brasília e do estado de espírito da turma. “Não sei se o resto do Brasil entende exatamente do que estamos falando.”

Dinho reforça o papel da cidade: “Brasília está no nosso DNA. A cidade nos moldou. Não se pode falar do rock brasileiro sem falar do rock de Brasília. As melhores bandas do país são de Brasília.”

Philippe Seabra, da Plebe Rude, diz que o sucesso de “Até Quando Esperar” foi gradativo. As letras ainda dialogam com o presente. “Infelizmente muita coisa não mudou no Brasil.” Sobre a relação com Brasília, ele cita a música “Brasília” como a que melhor traduz a cidade, um caso de amor e ódio. No livro O Cara da Plebe, ele descreve a capital como uma utopia que revelou contrastes profundos.

Hip-hop e periferia

Nos anos 1990, o Câmbio Negro trouxe a vivência das periferias para a música de Brasília. O rapper X afirma: “O Câmbio Negro quis retratar a realidade do povo periférico, pobre, marginalizado. Isso acontecia em todo o país e também aqui, tão próximos do poder e tão isolados dele.” A imagem que o grupo queria construir era de protesto e conscientização, contrastando com a visão da capital.

X relembra o choque com a percepção externa. “Quando a gente ia tocar em outros lugares, muita gente achava que a gente conhecia o presidente. Nossa realidade era outra.” Ele cresceu em barraco de madeira, sem saneamento básico. “Queríamos mostrar que o povo periférico ainda hoje é tratado como cidadão de segunda classe.” Para ele, a situação ainda exige combate ao racismo, discriminação e violência.

A trajetória musical de Brasília mostra uma cidade que vai além da imagem institucional. O rock nasceu entre jovens do Plano Piloto, enquanto o rap expôs a realidade de regiões como Ceilândia. Essa diversidade de vozes explica por que a capital ocupa um lugar único na música brasileira, refletindo contrastes e transformações que continuam.

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