02/05/2026
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Ouro, Selic e endividamento recorde impulsionam penhor na Caixa

Ouro, Selic e endividamento recorde impulsionam penhor na Caixa

A aposentada Clarice Almeida, 72 anos, começou a ver sua coleção de joias de ouro de outra forma depois da pandemia. Com dívidas no cartão de crédito, ela penhorou anéis, pulseiras e correntes na Caixa Econômica Federal, a única instituição financeira do país autorizada a oferecer essa modalidade de crédito.

“Eu estava cheia de dívidas, não conseguia pagar minhas contas. Mas eu sempre tive bastante joia, e uma amiga minha penhora lá na Caixa aqui de Osasco e falou que era uma boa, que o juro era pouco. Penhorei e gostei também, o juro é bem mais baixo mesmo”, disse ela.

O penhor é um empréstimo com garantia. O cliente leva um bem de valor a uma agência, um especialista avalia o item e o crédito pode chegar a 100% do valor da peça, com o dinheiro saindo na hora. Os juros são de aproximadamente 2,19% ao mês, em contratos de até seis meses renováveis. Os bens ficam guardados no cofre da Caixa até a quitação da dívida; se não forem pagos ou renovados, vão a leilão.

A alta do ouro impulsionou a procura. No último ano, o metal avançou mais de 60% e renovou recordes históricos. Em janeiro, chegou a US$ 5.600 por onça. “Em reais, o ouro à vista chegou à máxima de R$ 900 por grama“, afirma Mauriciano Cavalcante, especialista da Ourominas. Depois, a cotação caiu para US$ 4.712 por onça por causa de conflitos no Oriente Médio, mas a tendência ainda é de alta.

O ouro é visto como reserva de valor em momentos de instabilidade. A alta começou no fim de 2022 com a guerra na Ucrânia e o confisco de reservas russas. No ano passado, a política comercial do presidente Donald Trump abalou a confiança no dólar e nos títulos americanos, elevando ainda mais o ouro.

Com o metal mais valorizado, as joias valem mais e a procura pelo penhor disparou. Segundo a Caixa, a carteira da modalidade encerrou 2025 com saldo de R$ 3,2 bilhões, crescimento de 31,24% em relação ao ano anterior. “Como o ouro subiu bastante, muitos clientes passaram a ter um patrimônio relevante parado nas gavetas de casa”, diz Gustavo Trotta, sócio da Valor Investimentos.

Outro fator é o endividamento das famílias, que atingiu 80,4% da população, recorde histórico. A inadimplência subiu para 29,6% das famílias endividadas, impulsionada pela taxa Selic em 14,75% ao ano, maior patamar em quase duas décadas. O penhor ganha espaço por ser mais barato que outras linhas tradicionais.

O penhor não exige análise de crédito minuciosa, sendo uma porta de entrada para pessoas com nome negativado. No entanto, pode ser um sinal de endividamento silencioso, já que não aparece nos registros tradicionais de crédito. “Quando vemos o penhor crescendo junto com o endividamento recorde, isso reforça a ideia de que uma pressão financeira vem acontecendo fora do radar tradicional”, afirma Trotta.

Os juros de 2,19% ao mês do penhor são mais altos que os do consignado público (2,11%) e do vinculado ao INSS (1,76%). Para servidores públicos, o consignado é vantajoso por ser descontado no contracheque, mas não permite renovação do contrato. A limitação, segundo Marcos Praça, diretor da ZERO Markets Brasil, é que o consignado não depende de o cliente ter um bem para dar em garantia.

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