A transformação de clubes em Sociedade Anônima do Futebol (SAF) se tornou uma tendência forte no futebol brasileiro, com promessas de profissionalização, dinheiro novo e gestão moderna. No entanto, fatos recentes mostram que o modelo, sozinho, não garante sucesso. O alerta nunca foi tão claro para o Fluminense.
Dois exemplos chamam a atenção, e um deles ganhou um capítulo ainda mais grave. O Vasco apostou em um investidor estrangeiro, viveu entusiasmo no início, mas mergulhou em crise institucional e financeira após o colapso da relação com a 777 Partners. O clube busca solução e tenta reorganizar uma estrutura fragilizada.
No Botafogo, o cenário que parecia sólido ruiu de forma mais ruidosa. O clube passou de euforia com investimentos, títulos e projeção internacional para turbulência. O ponto mais emblemático veio nesta semana: o afastamento de John Textor do comando da SAF por decisão arbitral. O movimento expõe conflito interno e fragilidade da governança em um momento de necessidade de estabilidade.
Para entender por que projetos promissores chegam a essa situação, a coluna ouviu o especialista em reestruturação empresarial Hugo Cayuela, sócio da RGF Associados. Segundo ele, “a SAF resolve o problema de forma, mas não resolve o problema de substância”. Mudar o CNPJ não corrige falhas históricas de gestão.
Cayuela aponta que o erro mais comum é o crescimento sem sustentação. Projetos recebem investimento, aceleram despesas e ganham visibilidade, mas não constroem processos, controles e governança compatíveis. O resultado, mais cedo ou mais tarde, aparece como crise.
Outro fator decisivo que os casos recentes escancaram é o conflito entre sócios. Quando divergências internas se misturam a dificuldades financeiras, a gestão trava. Foi exatamente isso que o episódio envolvendo Textor evidenciou no Botafogo.
O diagnóstico é direto: dinheiro ajuda, mas não resolve sozinho. Sem gestão eficiente, controle de gastos, planejamento esportivo e alinhamento societário, qualquer projeto, com ou sem SAF, fica vulnerável.
É nesse cenário que o Fluminense precisa tomar sua decisão. O clube flerta com o modelo em um momento em que exemplos visíveis do mercado brasileiro deixam de ser promessas e se tornam alertas concretos. A SAF pode ser uma oportunidade, mas também pode amplificar problemas quando mal estruturada. Vasco e Botafogo mostram que o risco não está no modelo em si, mas na forma como ele é executado.
